– Meu pai não deixou porque ele disse que não é certo o que seu pai faz.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Minha mãe não deixou porque é coisa do demo.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Meu pai não deixou porque é coisa de louco.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Minha mãe não deixou porque é coisa muito avançada, o que seu pai faz.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Meu pai não deixou porque não fica bem o filho dele andar com o filho de um viado.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Minha mãe não deixou porque ele pode me pegar e colocar em um saco.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Meu pai não deixou porque Deus não quer.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Minha mãe não deixou porque Deus quer.

– Superfragilisticexpialidocius.

– Meu pai não deixou e pronto.

– Superfragilisticexpialidocius.

 

O adolescente Dante é o herói dessa história, e como todo herói apresenta seus pontos fortes e fracos. Superfragilisticexpialidocius é uma “palavrinha mágica” utilizada pelo jovem em momentos em que precisa afugentar seus monstros. Não são poucos os momentos em que Dante se vê diante de problemas recorrentes a vida, ou simplesmente maximizados por sua cabeça adolescente. É assim, no meio de um turbilhão de emoções que Plínio Camillo coloca suas personagens e o leitor ao abrir as páginas de “O namorado do papai ronca.” Primeiramente a gente abre por curiosidade, continua a leitura por conta do diálogo envolvente e em forma de roteiro, não larga o livro e passa a acompanhar a manhã, a tarde e a noite de Dante.

A publicação possui vários elementos que, acredito, fazem com que os jovens sintam-se atraídos. Todo o momento são apresentadas referências a livros, filmes, games, seriados e redes sociais do momento de forma fluida, ou seja, sem “forçação” de barra.

Dante precisa ir morar com seu pai em uma cidade pequena, onde também vivem outros parentes. Com um ritmo de vida acostumado à grande São Paulo, o jovem precisa adaptar-se à cidade de Procópio. Dante é louco por futebol e um jogador de talento, o que logo o faz se integrar as atividades esportivas da nova escola. A partir daí os clássicos dilemas adolescentes vão sendo tratados. Amizade, paquera, namoro, adaptação, relações familiares e escolares.

O personagem ainda se vê diante da realidade da homossexualidade. Passa a conviver com Ademar, o namorado de seu pai Heitor. Dante se dá bem com Ademar mas não suporta seu ronco e o vício em cigarro. Com uma perspicácia incrível o autor nos faz entrar na casa de Heitor e acompanhar o dia a dia de uma família, e aos poucos vamos percebendo que a orientação sexual em nada tem o poder de afastar um ser humano dos dilemas cotidianos e reais da vida. Em um momento em que tanto se discute sobre relações homoafetivas, casamento gay, homofobia, “O namorado do papai ronca” passa a ser uma ótima e inteligente opção para tratar do tema com nossas crianças e adolescentes.

 

Dante acompanha Heitor em uma caminhada pela fazenda.

— Você é gay, pai?

— Como?

— Quero saber se você é gay?

— O que é ser gay, filho?

— Pai! Estou perguntando e não quero responder!

— Filho, sou um homem que adora o filho que tem e que ama outro homem.

— Mas então, é gay!

— Não sei. Sou alguém que gosta do que é.

— Não é gay?

— Filho!

— É, ou não é?

— Sem entender o que você quer dizer não sei responder.

— Então tá: gay é aquele que anda rebolando, fala fino e faz coisas como se fosse uma mulher.

— Então eu não sou.

— E que também transa com homem.

— Então eu sou.

 

Do site: “O Pedagogento – pedagogia sem frufrus” (http://opedagogento.blogspot.com.br/2012/08/o-namorado-do-papai-ronca.html)

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Um comentário sobre ““O namorado do papai ronca” – Resenha por Rafael Mussolini

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