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Tarde

Andam a cavalo.

Tomam banho de cachoeira.

Caminham por muitas trilhas.

Priscila conduz a charrete com maestria.

Ademar cozinha bem.

Heitor é fera na mímica.

Dante pega as mangas nos galhos mais altos.

Ademar prepara o jantar.

Priscila brinca com os filhos do Flávio.

Dante acompanha Heitor em uma caminhada pela fazenda.

— Você é gay, pai?

— Como?

— Quero saber se você é gay?

— O que é ser gay, filho?

— Pai! Estou perguntando e não quero responder!

— Filho, sou um homem que adora o filho que tem e que ama outro homem.

— Mas então, é gay!

— Não sei. Sou alguém que gosta do que é.

— Não é gay?

— Filho!

— É, ou não é?

— Sem entender o que você quer dizer não sei responder.

— Então tá: gay é aquele que anda rebolando, fala fino e faz coisas como se fosse uma mulher.

— Então eu não sou.

— E que também transa com homem.

— Então eu sou.

— Mas você transou com a minha mãe?

— Sim, querendo, gostando dela.

— É ou não é?

— Imagine se é difícil entender, muito mais é viver. Gostei, amei muito a sua mãe. Fica­mos juntos muito tempo. Ficamos juntos querendo ficar. Um dia deixamos de gostar de ficar juntos.

— Eu sei, sempre dizem isto.

— Então, depois comecei a me perceber. Ouvir a mim mesmo. Nunca quis ser uma mulher ou outra coisa diferente do que sou. Nem sempre tendo focinho de porco, pé de porco, orelha de porco é porco.

— Então o que é?

— Pode ser uma feijoada.

— Então você saiu do armário?

— Nunca estive em um, sou um professor e nem por isto me sinto menor ou menos importante do que um médico. Sou um homem que ama outro homem, e não me sinto menor e nem pior que outro homem qualquer.

— Sei.

— Com todas as dificuldades, com as certezas, estou muito mais feliz, tranquilo. Sei que sua avó não quer falar comigo. Sei que me olham torto, imagino o quanto é difícil para você.

— Mas pai, antes nunca foi! Agora é estranho, meio complicado.

— Imagino.

— Para mim é um problema seu e não meu.

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Um comentário sobre “O namorado do papai ronca

  1. Gostei muito da analogia:

    “- Então, depois comecei a me perceber. Ouvir a mim mesmo. Nunca quis ser uma mulher ou outra coisa diferente do que sou. Nem sempre tendo focinho de porco, pé de porco, orelha de porco é porco.
    – Então o que é?
    – Pode ser uma feijoada.”

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