DOS LIVROS QUE LEMOS, AS LIÇÕES QUE APRENDEMOS

Uma criança vivendo em uma sociedade que abomina seu pai gay por Lucas de Godoy Caparroz

 

Milena, meu pai me contou [que era gay] quando eu tinha mais ou menos seis anos:

ele foi franco comigo. Explicou que por namorar um outro homem ele não era um monstro e nem um mutante.

Ele quer ser feliz como todo mundo, né? 

 

Recentemente li um livro que me fez pensar muito. Um livro simples, com palavras simples, leitura nada complexa e rápida, poucas páginas, mas que em toda sua simplicidade, me fez ver o quão triste é o mundo em vários aspectos e muito lindo em outros. Este livro se chama “O Namorado do Papai Ronca”. Para se situar sobre o livro, farei uma breve sinopse do que se trata.

O livro acompanha por seis meses um adolescente que vai morar com o pai enquanto a mãe está fazendo um mestrado em Milão. Seu pai mora numa cidade no interior do estado de São Paulo e se relaciona amorosamente com um outro homem. Com isso, o menino percebe em seu próprio cotidiano o preconceito da sociedade pelo pai ser homossexual. A obra ainda traz diálogos e personagens em linguagem social web — conversas instantâneas por Skype ou Messenger e perfis de redes sociais são utilizados para contextualizar conversas e apresentar figuras do livro.

Com este livro consegui tirar grandes reflexões. Grandes lições de vida. O escritor, Plínio Camilo, conseguiu passar através de suas palavras como as crianças são grandemente influenciadas pelas ações e decisões dos pais. O protagonista da história, Dante, sempre viveu em São Paulo e quando foi para essa pequena cidade no interior (Procópio), pôde perceber o quão grande é o preconceito da população com seu pai e seu companheiro — podemos notar que o que se passa na história é o que acontece com muitas pessoas na triste vida real. No meio do livro, alunos de Heitor (pai de Dante, professor de História) inventam uma história para incriminá-lo usando o fato de ele ser homossexual. No decorrer do livro, é possível notar a criança reparando em como as pessoas encaram seu pai, como cochicham ao passar por ele, e como o fato de uma pessoa importante de sua família não fala com o pai.

Diante disso, podemos notar o quão nocivo é para uma criança ver tanto preconceito. Num diálogo com sua avó, que diz que o relacionamento de seu pai é uma abominação, Dante diz que não concorda com ela. Acha que é uma abominação o que ela faz com ele [não conversa com o próprio filho]. Além disso, Dante se torna alvo dos pais de seus amigos, ao impedir que estes estivessem junto com Dante por causa de seu pai. Já perto do fim da história, é possível ver a ação desses pais quando as crianças começam a contar porque não participaram de um jogo com Dante. São relatos iguais aos que acontecem no cotidiano de muita gente. Tristes frases lidas como: “Meu pai não deixou porque ele disse que não é certo o que seu pai faz”, “Minha mãe não deixou porque é coisa do ‘demo’”, “Meu pai não deixou porque é coisa de louco”, “Meu pai não deixou porque não fica muito bem o filho dele andar com o filho de um viado”.

O melhor ponto do livro, é notar que as únicas coisas que mais incomodam o menino em relação ao namorado do pai, é o fato de ele fumar e roncar muito alto. Isso nos mostra que as crianças não se importam com quem você se relaciona, ou o que você é, mas coisas simples como essas.

A partir da leitura desse livro, é importante que se perceba o mal que está sendo feito para todas essas crianças. Possivelmente, ao crescer, serão pessoas cheias de preconceitos e (se for o caso) não conseguirão se aceitar, se o que forem (LGBT ou não) for errado aos olhos dos pais.

A lição que aprendi com este livro: cuidado com as palavras que fala e o jeito que age diante de uma criança, ela aprende e poderá reproduzir seu preconceito babaca.

Não procure rótulos, gavetas ou encaixes; por sorte, ou azar, somos todos diferentes, com diferentes olhares, diferentes formas de ver, sorrir e andar. E, principalmente, nem sempre o que é diferente da gente é ruim.

 

Lucas de Godoy Caparroz (Estudante de economia, com ideais de esquerda e que procura sempre se atentar para a luta das minorias. Aqui, meus textos basicamente terão tema – https://trendr.com.br/dos-livros-que-lemos-as-li%C3%A7%C3%B5es-que-aprendemos-bce7c915c497)

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A TEORIA QUEER E AS RELAÇÕES HOMOAFETIVAS NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

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A discussão sobre as relações homoafetivas tem se tornado cada vez mais frequente na sociedade atual. Na mídia, o assunto se faz cada vez mais presente, principalmente nas telenovelas, onde percebemos um aumento crescente da inserção de personagens homossexuais.

Este trabalho tem por objetivo analisar a representação da homossexualidade na literatura infanto-juvenil, especificamente no livro “O namorado do papai ronca”, de Plínio Camillo. Para tanto, foi utilizada a teoria Queer como referencial teórico.

Apesar de o assunto ser polêmico e ainda representar um grande tabu entre alguns pais, torna-se necessário sua discussão, uma vez que em diversos países o casamento entre homossexuais foi legalizado. Desse modo, atentar-se para as novas configurações familiares da sociedade contemporânea formada por dois pais ou duas mães é imprescindível para ponderar sobre a homofobia.

A literatura encontra-se desde sempre em nossas vidas, mesmo que não tenhamos consciência de sua presença. Antônio Cândido (1995), ao relatar a importância da literatura no atual mundo capitalista e globalizado, afirma que a literatura humaniza o homem ao lidar com suas representações tanto de modo consciente quanto inconsciente. A literatura é indispensável ao homem, algo constituinte de seu ser, sem o qual este se vê nos termos de Cândido, mutilado. Sendo a literatura um bem público, ela é um direito de todos. Creio, assim como Cândido, que “uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (1995, p.263). Na infância, a literatura desempenha o importante papel de fazer a criança questionar e conhecer o mundo, de adquirir valores. Assim, antes de nos atentarmos para a análise do homossexualismo no livro mencionado é importante fazermos um breve preâmbulo sobre as origens do gênero literário denominado literatura infanto-juvenil. A literatura infantil surge no final do século XVII impulsionada pela ascensão da burguesia na sociedade. No Brasil, a literatura infantil surge no final do século XIX e início do XX. No início, em virtude da influência européia, possuía um caráter essencialmente pedagógico, ou seja, os temas das obras sempre traziam ensinamentos morais destinados à educação de crianças e jovens. Destacamos um trecho da autora Regina Zilberman (2003) que reafirma esse caráter pedagógico presente nas primeiras publicações de literatura destinada às crianças:

É no âmbito da ascensão de um pensamento burguês e familista que surge a literatura infantil brasileira, repetindo-se aqui o processo ocorrido na Europa um século antes, e como no Velho Mundo, o texto literário preenche uma função pedagógica, associando-se muitas vezes à própria escola, seja por semelhança (convertendo-se no livro didático empregado em sala de aula) ou contigüidade (o livro de ficção que exerce em casa a missão do professor, como nas narrativas de cunho histórico de Viriato Correia e Érico Veríssimo, ou informativo, em Monteiro Lobato) (2003, p.207).

A função da literatura por muito tempo foi considerada como pedagógica, ou seja, servia para ensinar e repassar valores. Como exemplo podemos citar alguns romances e fábulas, cujo conteúdo expõe uma constante luta entre o bem e o mal, trazendo à tona o conceito de certo e errado. A fábula sempre apresenta ao final uma lição de moral, assim como a maioria dos livros destinados ao público infanto-juvenil. No começo da inserção da literatura infantil não havia espaço para as questões relativas à diversidade sexual. Foi a partir do final do século XX que surgem livros destinados ao público infantil abordando o tema das relações homoafetivas. São obras como: O gato que gostava de cenoura (1999), de Rubem Alves, Meus dois pais (2010) de Walcyr Carrasco, Olívia tem dois papais (2010) de Márcia Leite, dentre outros.

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Ao discorremos sobre a literatura, é preciso refletir também sobre o papel da escola no que se refere à abordagem do assunto. Para a maioria das crianças é na escola que terão o primeiro contato com o texto literário. Assim, ao trabalhar com a temática da homoafetividade, os professores poderão minimizar o preconceito e contribuir para a formação de crianças e adolescentes compreensivos e respeitosos com a diversidade. É tarefa do educador a formação de leitores críticos e conscientes, e assim, é muito importante a inserção de obras que trazem à tona a discussão da homossexualidade. Deste modo, o propósito desse trabalho é fazer uma análise do livro “o namorado do papai ronca”, destacando as questões relativas à homofobia ou diversidade sexual. A fim de analisar as noções de identidade na obra, a teoria Queer foi selecionada como principal referencial teórico.

A teoria Queer surgiu nos Estados Unidos no ano de 1990, com o objetivo de questionar as concepções de sexualidade presentes na sociedade. O termo Queer procede do inglês e significa raro, estranho, excêntrico. Guacira Lopes Louro (2004), pesquisadora da temática desde a década de 1990, conceitua o termo da seguinte forma:

Queer é tudo isso: é estranho, raro, esquisito. Queer é, também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser „integrado e muito menos „tolerado. Queer é um jeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do “entre lugares”, do indecidível. Queer é um corpo estranho, que incomoda, perturba, provoca e fascina. (LOURO: 2004, 7-8).

A teoria surgiu como uma resposta e também como uma crítica ao movimento homossexual, uma vez que no início dos anos 90, apenas os homens, homossexuais brancos e de grande poder aquisitivo faziam parte do movimento. As lésbicas, Drag queens, transexuais, dentre outros, não estavam inclusos nesse caminho de liberação sexual. Assim, com o objetivo de questionar essa situação, surgiu o pensamento Queer, que buscou refletir sobre a luta e a identidade. Os estudos de Foucault e da contemporânea Judith Butler são referenciais teóricos que norteiam o estudo da teoria Queer.

A teoria Queer difere das ideias presentes no movimento gay ao propor a não identidade. O objetivo é questionar essa noção de identidade que pressupõe a existência de dois gêneros. Assim, a teoria Queer defende a tese de que a identidade não é uma essência, mas algo contínuo. Ao propor essa negação de identidade o que se busca é investigar outros aspectos importantes que auxiliam na delimitação do tema, tais como a construção étnica, a classe social, não se restringindo apenas a questão do gênero. Desse modo, a teoria surge para lutar pela igualdade dos diferentes indivíduos sexuais presentes, procurando também questionar as normas de uma sociedade heteronormativa.

Dessa forma, buscando avaliar a questão da homossexualidade na literatura infanto-juvenil foi escolhido o livro “O namorado do papai ronca”, de Plínio Camillo. O romance escrito por Plínio foi lançado em junho de 2012. O título chama a atenção e aguça a curiosidade dos leitores ao perceberem que o autor irá trabalhar com um tema polêmico. O protagonista é Dante, um garoto de 12 anos que, por causa de uma viagem de sua mãe à Itália precisa morar seis meses com o pai Heitor em Procópio, interior de São Paulo. Dante passa então por um período de adaptações: entrar na escola no meio do ano letivo, morar em uma nova cidade, enfrentar a saudade da mãe e dos amigos que deixou.

O autor utiliza uma linguagem simples, voltada para o público jovem, tornando a leitura mais rápida e interessante. Ao descrever o cotidiano de Dante, Plínio o faz de forma descomplicada, dividindo o dia em manhã, tarde e noite, como se fosse uma agenda. A presença da internet é um fator que se aproxima do universo dos jovens. Alguns relacionamentos de Dante são realizados através das redes sociais e alguns personagens nos são apresentados como se fossem perfis do Facebook. E também os diálogos de Dante com a mãe são todos realizados via Skype. Além disso, em diversos momentos são apresentados filmes, jogos, seriados e músicas contemporâneos.

Acostumado com a vida agitada de São Paulo, o jovem precisa adaptar-se à cidade do interior. Ele é apaixonado por futebol e logo se destaca na escola por ser um jogador com muito talento. O personagem passa então a conviver com Ademar, o namorado do seu pai. Dante possui um bom relacionamento com Ademar, e sua maior implicância é que o namorado do seu pai ronca. Porém, o fato do pai de Dante namorar um homem faz com que o garoto seja excluído. A própria avó e mãe do Heitor não aceita esse fato e deixa de conviver com o filho. Dante deixa de disputar o campeonato de futebol porque os pais dos colegas de time os proibiram de manter amizade com o menino em virtude da orientação sexual do pai. Em determinado momento da narrativa, Dante questiona o pai a respeito de sua sexualidade, como transcrito abaixo:

“— Você é gay, pai?

— Como?

— Quero saber se você é gay.

— O que é ser gay, filho?

—  Pai! Estou perguntando e não quero responder.

— Filho, sou um homem que adora o filho que tem e que ama outro homem.

— Mas então, é gay!

— Não sei. Sou alguém que gosta do que é.

— Não é gay?

— Filho!

— É, ou, não é?

— Sem entender o que você quer dizer não sei responder.

— Então tá: gay é aquele que anda rebolando, fala fino e faz coisas como se fosse uma mulher- Então eu não sou.

— Então eu não sou.

— E que também transa com um homem.

— Então eu sou”. (2012, p.113-114).

 

Nota-se a questão do estereótipo na qual o homossexual masculino possui modos afeminados, enquanto os heterossexuais são vistos como “machões”. É interessante relacionarmos essa posição aos teóricos Queer, pois temos aí o binômio homossexual x heterossexual. Segundo a teoria Queer, o movimento gay falha ao buscar impor as diferenças uma vez que não perde de vista a referência heterossexual. O livro retrata bem o tema do preconceito, mostrando o quanto está presente em nossas vidas.

Assim, em um momento em que tanto se discute sobre as relações homoafetivas, a obra analisada é uma interessante opção para tratar o tema com crianças e adolescentes. Para a maioria das crianças é na escola que terão o primeiro contato com o texto literário. Portanto, ao trabalhar com a temática da homoafetividade, os professores poderão minimizar o preconceito e contribuir para a formação de crianças e adolescentes compreensivos e respeitosos com a diversidade.

 

Autora: Jacqueline Paula da Silva (UFU)

20130627 - Lan+ºamento do Livro - O namorado do meu pai ronca (46)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Camillo, Plínio. O namorado do papai ronca. São Paulo, Prólogo Selo Editorial, 2012.
MORTON, Donald. El nacimiento de lo ciberQueer. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios Queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 111 a 140.
Teoria Queer e Behaviorismo radical – muito além dos rótulos de sexualidade. Disponível em: http://www.olharbeheca.blogspot.com. Acesso em: 18 de fevereiro de 2013.
CANDIDO, Antônio. O direito à literatura e outros ensaios. In: Vários Escritos. 3. ed.
Revista e ampliada, São Paulo, Duas Cidades, 1995.
Criações      internéticas.  O    namorado   do    papai    ronca.    Disponível  em: http://www.celpcyro.org.br. Acesso em: 18 de fevereiro de 2013.
LOURO, Guacira Lopes. O corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 11. ed. São Paulo: Global, 2003.

“O namorado do papai ronca” – Um olhar por Nanete Neves

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Um thriller em linguagem de roteiro que acompanha seis meses bastante especiais na vida de um adolescente também muito especial no período em que ele sai da grande metrópole para morar uns tempos com o pai numa pequena cidade do interior, enquanto a mãe vai para a Itália com projetos de estudos e trabalho.

O namorado do papai ronca é o romance de estréia de Plinio Camillo que traz o seu olhar de dramaturgo para a narrativa ficcional voltada para um público bastante exigente: os jovens adultos. E é na linguagem deles que o autor faz um recorte na vida desse garoto inteligente, articulado e louco por futebol, o que torna essa narrativa absolutamente contemporânea

Recortes de diálogos via Messenger revelam o modo como Dante se relaciona com os amigos no jogo de aparências tão comuns na adolescência. Já os contatos diários via Skype com a mãe demonstram o quanto ele ainda tem de criança, sentindo falta de seu colo e sua proteção. Na descrição dos personagens o autor lança mão de outra ferramenta bastante moderna: os perfis nas redes sociais.

Ou seja, de forma hábil e sensível, Plinio Camillo trata desse personagem de forma amorosa e com a intimidade de quem conhece a fundo essa fase da vida por si só repleta de sentimentos contraditórios, e nos fala das angústias e descobertas desse garoto numa fase em que ele precisa se adaptar a uma nova cidade, nova casa e novos costumes, tendo ainda que lidar com as saudades que sente da mãe e dos amigos que deixou na metrópole. E tudo numa linguagem quase cinematográfica.

Selecionado pelo CONCURSO DE APOIO A PROJETO DE PRIMEIRA PUBLICAÇÃO DE LIVRO NO ESTADO DE SÃO PAULO de 2011 (ProAC Edital nº 32/2011), com uma narrativa ágil, certeira, sensível, atual e bem-humorada, Plinio Camillo nos brinda com Dante, esse protagonista que nos cativa da primeira à última linha simplesmente por ser um garoto cheio de facetas e contradições, e por isso mesmo, tão parecido como os jovens de 12 anos que conhecemos .

O título, provocativo, nos faz refletir indiretamente sobre a questão homoerótica uma vez que o fato do pai relacionar-se amorosamente com outro homem é o menor dos problemas desse menino que vive tão intensamente cada momento e cada gol.

Sinal que a literatura está viva, e ainda pode nos surpreender com um texto como este, capaz de encantar jovens e adultos com a mesma potência.

O namorado do papai ronca – Resenha de Maria Helena Martins

O Namorado do papai ronca

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O autor harmoniza a linguagem internética (discurso conciso, terminologia e recursos gráficos próprios, privilégio ao diálogo) com a linguagem coloquial corrente. E, na integração desses aspectos constrói um texto efetivamente literário, pois trabalha a palavra de modo a ir além de seu uso comunicativo e cotidiano, buscando a expressividade, numa dimensão que supera modismos. Assim, o que é eminentemente coloquial, sem aspectos  que se convencionou entender por literários, resulta, contudo,  em texto elaborado, pois que o autor impregna-o de densidade significativa, por meio de figuras de linguagem como repetição/reiteração, enfatizando o aspecto emocional de quem a usa e para quem se dirige no contexto da obra.

Mais do que a questão vocabular, o uso de expressões coloquiais ou comuns na internet (cf. p.81, a mais marcante nesse aspecto), chama a atenção o modo como Camillo desenvolve o diálogo-relato, vivo e rápido mas suficientemente denso e sugestivo para se conhecer o…

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O namorado do papai ronca – Resenha

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Os preconceitos que permeiam nosso dia-a-dia

 

Homofobia, xenofobia, bullying, machismo, violência doméstica, racismo, intolerância. Essa é a temática que permeia o título “O namorado do papai ronca” de Plínio Camillo. Entretanto, nem todas essas expressões preconceituosas estão contidas diretamente no texto do livro, e sim na cabeça do leitor, eis a grande sacada do escritor.

A história é simples, como uma boa novela, descreve o drama diário de um garoto que passa a viver com o pai e seu namorado em uma cidade pequena, e passa a inserir na coletividade em meio a escola e os “olhares tortos” dos adultos, das outras crianças e da própria família em alguns casos.

O interessante nessa novela, é como Plínio a constrói: valendo-se de um linguajar coloquial e direto, que se aproveita bem da objetividade comum dos dias atuais em que as pessoas estão acostumadas a consumir informações pela Internet.

E justamente valendo-se dessa objetividade que Plínio constrói sua “armadilha” ao leitor, pincelando as informações que são vitais para a sua história sem despejá-las completamente no papel, cabendo ao leitor preencher esse vácuo notoriamente colocado propositalmente na narrativa.

Conforme o leitor faz esse exercício, é obrigado contestar a si mesmo, se o que está pensando é ou não preconceito de sua parte. Assim, mais do que uma simples novela, esta história é um teste, um teste para o leitor saber até onde carrega algum tipo de preconceito que nem sempre lhe é explicitamente consciente

Pedro Luiz (Pedroom Lanne) autor de Adução – Dossiê Alienígena

(https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/247197/edicao:276759)