DE RUA

5 - 20180310_090150

PREFÁCIO por José Sérgio Fonseca de Carvalho

 

Na maior parte das vezes, quando por eles passamos, vislumbramos algo, mas não enxergamos ninguém. Detectamos miséria, inferimos descaso, imaginamos abandono, fantasiamos violência. Mas nada disso faz com que neles enxerguemos alguém. Afinal, um “alguém” tem sempre um rosto, um olhar, um nome. Só um “ninguém” teria no lugar do nome apenas as iniciais (de forma que um josé poderia ser um joão, um joaquim, um jonatan ou…ninguém!). Só um “ninguém” poderia ter no lugar dos olhos – o espelho da alma – uma tarja preta desalmada, tal como aquela com a qual se escondem a fim de poder aparecer no jornal.

Porque o nosso olhar os despoja da condição de alguém – de um alguém que é criança, jovem ou adolescente – eles podem aparecer apenas como corpos que se movimentam, que produzem ruídos, que reagem, que ameaçam. E assim podem se transformar em objeto de ira, ouvir promessas de morte e acabar na mira de um revólver da polícia ou no acerto de contas preventivo de um de seus “irmãos”. Ou descartados depois de um gozo voraz e consumidor; substituídos por um outro alguém – ou melhor, um outro ninguém – mais jovem.

Mas não na literatura de Júlio e de Plínio. Urdida no entrelaçamento da experiência de ambos como educadores de rua com a paixão comum pela escrita, as narrativas que compõem esta obra recriam histórias singulares desses adolescentes que, pelas mais diversas razões, fazem da rua a sua casa e da cidade o local de seu trabalho e sustento. Nelas nos deparamos com jovens que têm e despertam desejos; que matam e que são mortos. Gente que só queria “bater um rango” e dançar no Asa Branca; ter um filho, vingar-se do pai. Gente que gosta de contar e inventar histórias. Histórias que muitas vezes se calam no desaparecimento precoce de seus protagonistas, mas que noutras se reinventam na conversão religiosa loquaz ou no casamento que os encerra numa vida “normal”.

E assim, nas narrativas de Plínio e Júlio, aqueles que poderiam jamais passar de um amontoado de “ninguéns” perambulando pelas ruas se convertem em pessoas que partilham nosso mundo, que experimentam os mesmos medos, as mesmas paixões e inseguranças de cada um de nós. Não é à toa que a maior parte dos contos aqui publicados portam o nome de alguém. Eles nos falam de jovens que portam armas, mas têm medo de injeção. De outros que desaparecem sem deixar traços nem dizer adeus, mas também dos que esperam inutilmente pela visita de suas mães ou preferem esquecer como são seus pais para deles se aproximarem novamente. Elas nos aproximam desses jovens dos quais nos distanciamos nas ruas. E o fazem sem reduzi-los a uma patologia social a que supostamente teríamos acesso esquadrinhando causas, apresentado estatísticas, perquirindo correlações.

Em sua recriação literária, Sueli, Ricardinho, Mateus, Crisleide a nós se apresentam como são: pessoas. Daí a importância deste livro. Desde a primeira vez que li o conto “Dimenor”, sugeri a Júlio que o publicasse junto com outras narrativas que recriassem no plano da literatura sua experiência como educador de rua. E ele assim o fez com a preciosa colaboração de seu amigo Plínio. O que emerge nestas páginas é, pois, um quadro sensível de uma convivência pontuada por insegurança, afeto, estranhamento, confiança. A potência da palavra literária humaniza a trajetória de cada um desses jovens. E, ao assim fazer, humaniza nosso olhar para outros tantos Buizãos, Josis e Carequinhas que compartilham nossas ruas, nossos medos, nossos sonhos. Nosso destino comum de pessoas a errar a espera de uma visita que sempre se anuncia, mas nunca vem.  José Sérgio Fonseca de Carvalho (Livre Docente em Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo. Desde 2007 desenvolve pesquisas sobre os vínculos entre o pensamento político de Hannah Arendt e a educação no mundo moderno. Foi membro do Conselho Municipal de Educação em Direitos Humanos da Cidade de São Paulo)

 4 - 20180310_090119

POSFÁCIO por Giancarlo Silkunas Vay

Em 1989 a ONU trouxe ao mundo a Convenção dos Direitos da Criança, com a doutrina da proteção integral, a qual pretendeu por fim à até então vigente doutrina da situação irregular que dividia os jovens em duas classes: aqueles de famílias consideradas estruturadas, com boas condições socioeconômicas, seriam as crianças, já os outros, privados de condições essenciais à subsistência, com responsabilidade ou não de seus pais, ou vítimas de maus tratos, abandono e criminalização, seriam os menores. Com a nova doutrina, aprofundada no Brasil com o ECA, surge o direito desses jovens, crianças e adolescentes, agora sem qualquer distinção socioeconômica – serem ouvidos quanto a seus desejos, medos e inseguranças, a fim de que tanto o Estado, a sociedade e sua família sejam obrigados a considera-los, possibilitando que participem dos processos decisórios que envolvessem suas vidas. O que o leitor tem neste momento em suas mãos é uma obra como poucas, que permite, a partir da visão de dois ex-educadores de rua, trazer à lume o cotidiano de jovens que permaneceram em situação de rua na década de 1990 e que cruzaram seus caminhos. O mito do “menor” ainda ronda o senso comum. Há um estigma de que o “menor” seria a encarnação do mal: “menor mata adolescente”, nunca o contrário. Assuntos como roubo, abuso sexual, abandono, maus tratos, pobreza , drogas, são geralmente discutidos pela grande mídia de maneira ideologizada e insuficiente. Ainda que se tente varrer a “sujeira” para debaixo do maravilhoso e mágico tapete que orna a sociedade capitalista, esses assuntos, esses fatos, envolvem pessoas de carne e osso, e se aproximar de suas histórias permite uma compreensão mais profunda dos problemas sociais. No limite nos permite aprofundar a empatia, a ser mais humano. Mario Vargas Llosa diz que a literatura permite um vínculo fraterno entre os seres humanos, obrigando-os a dialogar e fazendo-os conscientes de uma matéria comum. Ela não diz nada aos seres humanos que se contentam com a vida tal como é, mas é alimento de espíritos indóceis e propagadora das inconformidades. Com esta obra os autores nos presenteiam e nos convidam a conhecer histórias que não costumam ser contadas, que costumam ser escondidas contribuindo com a manutenção do mito do inimigo, do impiedoso desconhecido. Giancarlo Silkunas Vay {Defensor Público do Estado de São Paulo; Professor de Direito da Criança e do Adolescente, presidente do Grupo de Trabalho de Infância e Juventude do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM no biênio de 22015/2016) e e membro associado do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM})

3 - FB_IMG_1524145281475

Parceiro nesta jornada: Júlio Gonçalves Dias – Sociólogo, autor de contos, microcontos e haicais. Está para começar ou já começou o quinto capítulo de um romance. Acredita que coisas marcantes de sua infância passada no interior de São Paulo foram o quintal de casa – enorme e cheio de árvores – e as caminhadas sozinho ou com os moleques pela pequena Novo Horizonte – quando descobriu o Circo e os acampamentos ciganos. Tinha tesouros guardados sob a cama: moedas antigas do pai, marcas de cigarros, figurinhas, piões, um chefe índio apache, estilingues e um canivetinho que a avó pensava perdido. Fingia ler grandes histórias nas bulas dos remédios e era muito orgulhoso de ir ao cinema sozinho. Um dia achou muito dinheiro na rua e começou a distribuir para todos dentro de casa. Descobriram que aquele dinheiro havia saído da bolsa de sua mãe. Ficou triste, pois sua história era muito melhor. Email: juliogdias@gmail.com

 

 2 - 20180310_090214

Onde comprar: http://www.editorakazua.net/prosa/de-rua-de-julio-goncalves-dias-e-plinio-camillo/

Plínio e Júlio